30 maio 2006

Herberto

Interrogas-te sempre, e interrogas-te mais uma vez, e sempre - tu que tanto e tão excessivo amor entregas à literatura (não estando em causa a foda ou o esgarçanço, e nos intervalos a bola) -, interrogas-te tu como haveria a Academia de merecer, e guardar, um Nobel que escreve asssim:

«Puseram-me de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, mas endireito a cabeça, viro o pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico do meu pobre Senhor. Por baixo da janela aonde assomou há uma outra, em estilo manuelino, uma relíquia, delicada obra de pedra que resiste ao tempo. D. Pedro deita a vista distraída à praça fechada pelos soldados. Contempla um momento a monstruosa igreja do Seminário, retórica de vidraças e nichos, as pombas pousadas na cabeça e nos braços do marquês, e detém-se em mim, em baixo, em mim que me ajoelhei no meio de um grupo de soldados. O rei olha-me com simpatia. Fui condenado por assassínio da sua amante favorita, D. Inês.»

Carta de Guia

Mais que as mulheres de Agustina (claro – foda-se…), mais que as mulheres do safardanas do Camilo (enfim…), o que desejavas mesmo, o que desejavas mesmo se Deus to permitisse e verdadeiramente o merecesses, era as mulheres que o bom do D. Francisco Manuel de Melo temia que nem lepra. Essas, sim, que sabem de cor os romances e fogem da santimónia, e à consciência da sua própria pele se atendem e entregam, rindo -- e já nem há...

«Pois se elas têm bons dentes, e aquilo que chamam graça na boca, e cova na face, aí lhe digo eu a V. Mce. que está o perigo.»

Oh, quanto sabia D. Francisco…

28 maio 2006

A Sibila

As mulheres de Agustina são as mulheres verdadeiras, as que cedem tudo, até o direito de passagem, as que (aparentemente) sucumbem ao poder omnipresente dos seus homens – e no entanto movem os cordelinhos todos do Poder. Agustina, a Sibila, como deve rir-se, por dentro, de tudo isto, sabendo que aos homens fica destinada apenas a ilusão de que mandam – vociferando ordens que, cabisbaixas, as mulheres acabam por cumprir desordenando, sem eles saberem, a ordem dos factores, o lugar dos talheres, os rios dos mapas.

27 maio 2006

Borges

Umberto Eco, em «O Nome da Rosa», chamou Jorge ao bibliotecário cego do convento, guardião dos livros e dos segredos do mundo. Como reagiu Jorge Luis Borges? Com ódio? Com um sorriso?

Pouco importa se o autor de «O Livro de Areia» morreu virgem, se esgaramanteava a laustríbia à pala das colaboradoras e co-autoras, se as pinava em segredo ocultando da mamã e do mundo os vestígios seminais nas cuecas. Esta é a verdadeira, única questão: Jorge Luis Borges reviu-se no Jorge de «O Nome da Rosa»? Sorriu por instantes ao adivinhar no tom de leitura de Maria Kodama um profundo despeito? Ficou fodido? Amuou? Adorou?

Isto é o que realmente interessa saber. O resto nem é literatura.

19 maio 2006

Adenda ao post anterior

Aliás, e em boa verdade: Ricardo Reis não existiu senão enquanto Pessoa.

18 maio 2006

Alberto Caeiro

A Alberto Caeiro não lhe falem de Ricardo Reis. Alberto Caeiro cultiva uma ostensiva sobranceria relativamente a um escritor que na realidade nunca existiu enquanto pessoa.

17 maio 2006

Fernando Pessoa [Heteronímia]

Às vezes penso que quando morrer terão que me fazer vários funerais – se verdadeiramente me quiserem enterrar.

A Literatura

A vida verdadeira é a vida que escondemos – e esse é o princípio da literatura.

15 maio 2006

Cervantes

Também eu fui D. Quixote. Mas despedi Sancho Pança com justa causa: o filho da puta, com o seu espírito prático, não descansou enquanto não fodeu Dulcineia - logo enquanto eu, numa mesa do pátio da estalagem, e ouvindo uns guinchos a que não dei importância, lhe preparava mais uma declaração de amor em doze laudas A4.

14 maio 2006

Dostoievski

Também eu fui Raskolnikov. Também eu matei a agiota e também eu escondi o dinheiro e as jóias. Mas ninguém sabe. Não levantei uma única suspeita. Não fui interrogado pela polícia. Caminho na rua de cabeça erguida. Sem remorsos. E todos pensam que recebi uma herança que me permite viver assim, numa casa fabulosa, com uma conta choruda no Totta, a deitar-me tarde, a acordar tarde, a escrever em blogs anónimos com a displicência de quem não tem nada que justificar a ninguém.

Tudo

Tudo o que verdadeiramente interessa no mundo reverte do lume e da água: do que é volátil: assim o amor, assim o desejo, assim os mecanismos da criação artística.

Uma pintura de Nadir Afonso

Um adeus português

Pedes-me, por sms, uma prova de que te amo: e eu, tão temente do ridículo, ainda assim escrevo-te um bilhetezinho de despedida em papel cor de rosa com volutas impressas em marca d' água.

13 maio 2006

Mentira

Verdade

12 maio 2006

As imagens

Só à literatura, à pintura e ao cinema é dado o milagre da revelação das imagens em estado puro: intrínsecas, elementais. Um espelho verdadeiro devolve sempre uma imagem falsa: a imagem que queremos ver – ou que, contaminados pela educação, pela cultura ou pela moral, somos obrigados a ver.

O futuro

É um fim de tarde de Maio. O céu muito azul. E, de súbito, uma nuvem lilás parece poisar nos telhados das casas, nos pátios, nas varandas. As mães saem à rua: suspensas, interditas. E olham o futuro como se os seus filhos já tivessem um outro nome, estivessem longe e precisassem de ajuda para respirar.

11 maio 2006

Os nomes dos blogs

Tudo o que verdadeiramente interessa no mundo é às vezes tão pouco que só não está ao alcance dos avarentos e dos gananciosos.

Mais que ser feliz

Mais que ser feliz eu quero os teus venenos, a tua tão mal disfarçada indiferença, o modo como, preocupada com o trânsito ou o cabelo nos olhos, fazes de conta que não me vês.

10 maio 2006

Começar

começar
primeiro uma pedra
primeiro um barco
primeiro o teu nome repetido entre pedra e barco
entre metáfora e nuvem
entre luz e desalento
entre proximidade e vertigem
e só depois as mãos quase esquecidas de chegar o Verão
quase esquecidas de nenhuma palavra desencadear os incêndios
quase esquecidas de repetir a tempestade nos muros de tijolo
quase esquecidas de respirar
quase esquecidas
de ser o Verão
começar
primeiro uma pedra
primeiro um barco
primeiro o teu nome